FEIRA DE SÃO TIAGO
Covilhã, mês de Julho
DESDE 1411

COVILHÃ E AS FEIRAS MEDIEVAIS

As feiras são fenómenos económico-sociais muito antigos, que resultam da necessária expansão de determinados produtos regionais.
As feiras portuguesas remontam aos primórdios da nacionalidade. Com efeito, é no séc. XII, no Foral de Ponte de Lima (1125), que encontramos a primeira referência concreta a feiras portuguesas.

A Covilhã, pilhada e devastada várias vezes pelas incursões dos mouros na península, torna-se, com a reedificação e povoamento feitos por D. Sancho I, numa das vilas mais importantes do reino.

O seu primeiro Foral (1186), outorgado pelo monarca, face aos elevados privilégios e regalias, fez afluir à vila uma população de engenho e arte. A povoação dinamizou a economia, pelo que, D. Afonso III, por carta régia de 1260, que a seguir transcrevemos, acabou por lhe conceder o direito a fazer uma feira anual, para a troca dos seus produtos.
"Afonso pela graça de Deus rei de Portugal, a todos os do meu reino e de todos os outros reinos que virem estas palavras, saúde, Sabede que eu mando fazer uma feira em cada ano na minha Vila da Covilhã, para festa de Santa Maria de Agosto e mando que essa feira dure oito dias a partir dessa festa de Santa Maria de Agosto. Todos os que vierem a essa feira por conta própria para vender ou para comprar fiquem seguros, na ida e na volta, que não se penhorem no meu reino por qualquer dívida, isto é, desde o oitavo dia antes de começar a feira até trinta dias depois, a não ser por dívida que for feita em dinheiro na dita feira. E para que ninguém tema vir a esta feira por causa disto passo, por este motivo, esta minha carta aberta selada com o meu selo, a qual tenham os juízes da Covilhã em testemunho e ponho como conto que quem agredir os homens que vierem a esta feira me pague seis mil soldos e o dobro do que tomar ao respectivo dono e todos os que vierem a esta feira com as suas mercadorias paguem a minha portagem e todos os direitos que devem pagar conforme legislação dessa feira. E os de fora, tanto vendedores como compradores, paguem na feira a portagem e os meus direitos que devem pagar nela. Dada em Lisboa, oitava das calendas de Agosto à ordem de El-Rei."
É esta carta régia que concede à Covilhã, o privilégio de ter sido das primeiras vilas do reino a ter direito a fazer feira nos seus domínios, e que ficou a constituir a carta tipo das feiras medievais portuguesas.

É no reinado de D. João I que vamos encontrar a cédula de nascimento da Feira de S. Tiago, nada tendo esta a ver com aquela instituída à dois séculos atrás. A primeira tinha a sua realização plena a 15 de Agosto, festa de Santa Maria, a segunda tinha o seu dia festivo a 25 de Julho, a Festa de S. Tiago.
É concretamente a 27 de Maio de 1411 que, por carta outorgada por D. João I, este concede á Covilhã, uma feira franqueada anual, com a duração de vinte dias pelo S. Tiago, devendo começar dez dias antes e acabar dez dias depois da festa do santo apóstolo, gozando de todos os privilégios e franquezas que tinha a feira de Trancoso, há muito tempo a mais importante feira das Beiras, e que por isso mesmo se tornara agora ela também, padrão ou carta tipo para outras feiras.
Essa feira, então solicitada e concedida pelo rei de Boa Memória, para o período das festas de S. Tiago, é esta mesma, que em 2011 completou 600 anos de história.

A FEIRA DE S. TIAGO
A feira começou por ter lugar no adro da antiga Igreja de S. Tiago, a qual, mais tarde, viria a ser demolida para dar lugar à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, mandada construir pelo Padre Jesuíta Nicolau Rodrigues, e que seria aberta ao culto em 1877.
Naquele local se transaccionaram "os panos de lã meirinha, os fiados de seda, de algodão, de lã, e de linho; os bureis e as mantas; os panos baixos e grossos", referidos no Foral de D. Manuel.
A par destes artigos da indústria de lã, e de outros que a ela afluíam vindos de outras paragens como as vergas, os vimes, a olaria, etc, havia um produto característico da época, muito comercializado nesta feira - o queijo picante, ou queijo queimoso, como vulgarmente é chamado. Este produto comercializava-se ali em tal quantidade, que há citações referentes à Feira de S. Tiago como a feira do queijo.
É por volta de 1870 que a Feira de S. Tiago começou a sofrer alterações. Demolida a Igreja de S. Tiago, em 1875, ocupados os terrenos pelo grandioso edifício da nova igreja, pela torre e pelos respectivos anexos, a feira foi transferida para o Largo D. Maria Pia, onde se situa actualmente o jardim público.
Foi neste local que se manteve durante décadas e também ali se comercializaram metros e metros de saragoças, baetas, casimiras, silésias, flanelas, serafinas, borelinas, sarjas, etc, conjuntamente com outros artigos que de longe demandavam a feira da "notável vila da Covilhã... uma das vilas mais importantes do reino pela sua população e riqueza", e ainda "por causa de ser esta vila a melhor da Beira e a mais forte deste extremo".
Mais tarde, por volta dos finais dos anos 30, a feira tinha atingido um desenvolvimento tal, que dificilmente se distribuíam no Largo D. Maria Pia os feirantes que a disputavam.
Houve pois necessidade de criar novos espaços. Assim, a feira foi transferida para o antigo campo de futebol, posteriormente chamado "campo das festas", onde a feira conheceu um célebre fulgor.
O auge da feira seria atingido quando, conjuntamente com a Feira de S. Tiago, se fez no jardim e Avenida Frei Heitor Pinto, a feira popular do Sporting. Foram anos inesquecíveis em que a Covilhã recebeu as maiores estrelas do fado e da canção nacionais.
Os mais idosos recordam com saudade o tanque dos gasolinos, que se situava onde hoje se ergue o infantário "Bolinha de Neve", o primeiro carrossel, os primeiros aviões, a primeira pista de carrinhos eléctricos...
Sem dúvida, a Feira de S. Tiago viveu nesses distantes anos, uma época gloriosa. Os vinte dias da Feira eram o grande acontecimento social dos covilhanenses, que transformavam a Feira num autêntico picadeiro.

Entretanto, a feira foi perdendo força. Regressou ao Jardim público porque foi projectado para o Campo das Festas o pavilhão gimno-desportivo do Sporting Clube da Covilhã. Voltaria de novo ao campo das festas, pois o pavilhão não foi acabado. Daqui transporta-se para os terrenos anexos ao acondicionamento têxtil, acompanhando a FAEC - Feira das Actividades Económicas da Covilhã.
Nos anos 80 foi para os terrenos do Parque Industrial, e mais tarde, associou-se à Covifeira - Feira Agrícola, Comercial e Industrial da Covilhã, nos terrenos da Escola Preparatória Pêro da Covilhã.

Nos anos 90, a Câmara municipal da Covilhã apostou no retomar desta tradição, com tudo o que ela merece. O retomar do tempo e da festa. O regresso ao lugar onde teve a sua grande glória.
Na perspectiva de recuperar a tradição multisecular e enraizar uma festa de que tanto nos orgulhamos, a Feira de São Tiago continua a realizar-se, agora no Complexo Desportivo.


Bibliografia:
> "História da Covilhã", José Aires da Silva.
> "Feiras Medievais Portuguesas", Virgínia Rau.
> "Subsídios para a Monografia da Covilhã", Artur de Moura Quintela.
> "Moderna Enciclopédia Universal", Círculo de Leitores.
> "Diário da Feira" - suplemento do Jornal do Fundão (13 de Julho a 14 de Agosto de 1970).
> "O Livro da Feira I e II" - Covifeira 1989 e 1990.


 



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